O ganho de produtividade é evidente
Ferramentas de inteligência artificial resumem processos extensos, organizam documentos e executam em minutos tarefas que antes consumiam horas. Para o médico perito, habituado a grandes volumes documentais e prazos apertados, esse ganho de produtividade é evidente.
Mas há uma mudança mais sutil em curso. À medida que essas ferramentas deixam de apenas organizar informação e passam a participar da construção do raciocínio técnico, surge uma questão que vai além da eficiência: a distinção entre coerência e verdade.
Toda seleção é uma forma de narrativa
Quando uma ferramenta de IA analisa um caso, ela não está apenas sistematizando dados. Ela faz escolhas: determinados elementos ganham destaque, outros ficam em segundo plano. Toda seleção é uma forma de narrativa, e toda narrativa envolve priorização e recorte da realidade.
Essa observação não é nova. Ao questionar a possibilidade de uma verdade inteiramente objetiva, Nietzsche sustentava que nossa compreensão do real é sempre mediada por sistemas de interpretação, que moldam aquilo que reconhecemos como verdadeiro. O mesmo princípio se aplica, guardadas as devidas proporções, à forma como um modelo de linguagem organiza informações periciais: ele influencia como a realidade do processo será percebida.
📌 Destaque: modelos de linguagem são treinados para produzir respostas coerentes e linguisticamente plausíveis — não para verificar se uma informação é verdadeira, tampouco para questionar as premissas que sustentam uma conclusão.
Coerência não é sinônimo de verdade
É por isso que vale distinguir coerência de verdade. O resultado é que uma resposta pode usar terminologia precisa e ter aparência de rigor técnico sem que suas premissas sejam corretas. A história da ciência mostra isso com frequência: teorias internamente coerentes sobreviveram por décadas antes de serem abandonadas diante de novas evidências.
A IA está orientada para produzir respostas plausíveis, não para investigar criticamente a realidade. Desconfiar, problematizar e confrontar hipóteses continua sendo trabalho humano.
O risco que passa despercebido
Erros grosseiros costumam ser percebidos sem dificuldade. O risco maior está em outro lugar: conclusões bem construídas, sustentadas por premissas frágeis, tendem a passar despercebidas, porque quanto mais convincente a narrativa, menor o escrutínio que aplicamos a ela.
Por isso, o desafio não está em aprender a usar a IA, mas em reconhecer os riscos que lhe são inerentes.
A análise crítica continua sendo tarefa do perito
A inteligência artificial aumenta a produtividade, reduz tarefas repetitivas e contribui para a qualidade formal dos laudos. Mas a análise crítica das premissas, dos fatos e de todo o arcabouço documental trazido ao processo permanece — e deve permanecer — tarefa exclusiva do perito.
Para aprofundar boas práticas na elaboração do laudo pericial, veja também nosso guia sobre como estruturar um laudo pericial.
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