Divergências entre o relato do periciado e os documentos médicos que constam nos autos costumam causar apreensão em peritos iniciantes. Mas a perícia judicial não se baseia em juízos de confiança: o trabalho técnico consiste em analisar as informações disponíveis, verificar sua coerência interna e construir uma conclusão fundamentada.
A entrevista pericial ocupa papel central na avaliação médico-pericial. Muitos elementos relevantes para a compreensão do caso só podem ser conhecidos por meio do próprio periciado — a evolução dos sintomas ao longo do tempo, o impacto da doença nas atividades diárias, limitações funcionais percebidas e aspectos da história clínica nem sempre estão adequadamente documentados.
Ao mesmo tempo, o relato também não pode ser aceito de forma isolada. A análise pericial exige o confronto entre diferentes fontes de informação: entrevista, documentos médicos, exame físico e os demais elementos presentes nos autos. Para organizar essas fontes de forma consistente, vale revisitar o tripé da capacidade laborativa.
📌 Destaque: divergências entre relato e documentação não indicam, por si só, má-fé — e não invalidam a perícia. O papel do perito é interpretá-las tecnicamente, não julgar intenções.
Inconsistências acontecem com mais frequência do que parece
Nem sempre as inconsistências indicam má-fé ou tentativa de manipulação do processo. Existem diversas razões legítimas para que elas surjam entre o relato do periciado e os documentos disponíveis.
Falhas de memória, especialmente em casos antigos, podem gerar imprecisões sobre datas e eventos. Registros médicos incompletos ou resumidos podem deixar de mencionar informações relevantes. Em algumas situações, diferentes profissionais de saúde descrevem o mesmo quadro clínico de maneiras distintas. Também não é incomum que limitações funcionais sejam percebidas pelo paciente, mas não tenham sido registradas formalmente em consultas anteriores.
Nessas situações, o perito não deve se preocupar em investigar as intenções do periciado. Seu papel é compreender tecnicamente o contexto e avaliar o significado daquela inconsistência para a conclusão pericial.
O que o perito deve fazer diante de uma divergência?
Acima de tudo, o médico perito não deve ignorar as incoerências. A divergência deve ser analisada e, quando relevante para a conclusão, mencionada no próprio laudo. Isso demonstra transparência metodológica e permite que o raciocínio pericial seja compreendido por todos os envolvidos no processo.
Além disso, a conclusão deve estar apoiada no conjunto dos elementos analisados, e não em uma informação isolada. O laudo é tão robusto quanto a sua capacidade de integrar entrevista, documentação, exame físico e demais evidências — o mesmo princípio que orienta a estruturação lógica do laudo pericial.
Conclusão
A existência de inconsistências entre o relato do periciado e os documentos médicos não invalida a perícia, nem impede a formação de uma conclusão técnica. Lidar com informações parcialmente divergentes faz parte da rotina de muitos processos.
O que diferencia uma atuação pericial consistente é a capacidade de identificar essas divergências, contextualizá-las e demonstrar, de forma clara e fundamentada, como elas foram consideradas na análise do caso. A força de um laudo não está na ausência de conflitos entre as informações, mas na qualidade do raciocínio utilizado para interpretá-las.
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